Dr. Evandro de Abreu Fernandes PhD, Professor Adjunto
Naiara Simarro Fagundes, Aluna Programa de Pós-Graduação
Faculdade de Medicina Veterinária – FAMEV
Universidade Federal de Uberlândia - UFU
I – INTRODUÇÃO:
O sorgo é uma gramínea de origem africana, pertencente à família Gramineae e de nome científico Sorghum bicolor (L.) Moench. Em área plantada ao redor do mundo, situa-se no quinto lugar entre aqueles cereais mais produzidos, ficando atrás apenas para as culturas de trigo, arroz, milho e cevada, com uma produção anual na ordem de 56 milhões de toneladas (TAYLOR; SHEWRY, 2006). No Brasil, a área plantada atingiu cerca de um milhão de hectares e uma produção média anual de 2,2 milhões de toneladas, concentradas na região centro-oeste (68%) e sudeste (20%). Entre as diferentes alternativas de composição das rações animais, o sorgo grão destaca-se como um recurso de oportunidade, capaz de promover uma significativa redução de custo, em especial no período do ano onde o custo final do frango produzido com rações a base de milho é o mais elevado.
II – ESTRUTURA DA SEMENTE DE SORGO:
A composição bruta e a estrutura do grão de sorgo e de milho são similares. O milho tem cerca de um por cento mais de óleo, enquanto o sorgo um por cento mais de proteína bruta. Os grânulos de amido são similares em tamanho, formato e composição. Além da forma e tamanho das sementes, a maior diferença entre o sorgo e milho está no tipo e distribuição da proteína em volta do amido no endosperma. O endosperma de ambos é dividido em endosperma periférico córneo (vítreo ou duro) e endosperma central farináceo (mole). Esta porção periférica é mais extensa no sorgo e caracteriza-se por uma região extremamente densa, dura e resistente a penetração de água. Os cultivares de sorgo grão encontrados podem ser classificados em grão de textura dura (endosperma vítreo), de textura média (metade do endosperma vítreo e outra metade farináceo) e textura macia (endosperma completamente farináceo). Antunes et al. (2007), encontraram numa amostra de 33 genótipos de sorgo uma composição de amido variando entre 62,07% a 78,74%, enquanto a fibra bruta encontrada teve o menor valor de 0,35% e o mais alto de 6,60%. A média de peso de 1000 grãos foi de 17,63g e a densidade variou de 1,40g/cm3 a 1,50g/cm3.
II.1 - FATORES INTRÍNSECOS QUE COMPROMETEM A DIGESTIBILIDADE
AMIDO: O amido é um composto de glicose com dois tipos de organização molecular: amilose e amilopectina. A amilose é um polímero linear de unidades α-1,4 D-glicose presentes em média de 20 a 30% no grânulo de amido. A amilopectina é uma molécula muito mais larga, mais abundante, formada de cadeia linear de 20 a 25 resíduos α-1,4 D-Glicose (amilose), interrompida por uma ligação α-1,6 D-glicose formando cachos de amilopectina. Os grânulos de amido do sorgo variam de 2 a 30µm de diâmetro, de forma esférica a poligonal, são pseudocristais estruturados em áreas organizadas (cristalina) composta de amilopectina e áreas relativamente não organizadas (amorfas) rica em amilose (ROONEY; PFLUGFELDER 1986). A digestibilidade do amido é afetada pela composição e forma física do mesmo, interação proteína amido, integridade celular da unidade que contém o amido, fatores anti nutricionais e a forma física do alimento (THORNE et al., 1983; DREHER et al., 1984). A digestibilidade é inversamente proporcional ao conteúdo de amilose do amido, tanto em grãos sob a forma natural como cozido. Desde os anos 60, várias gerações de novos híbridos com endosperma amarelo, adaptação a regiões tropicais e outras propriedades agronômicas foram intensificadas na cultura do sorgo bem como as linhas parentais de endosperma vítreo (waxy) que aumentam significativamente o valor de digestibilidade do amido e proteína passaram a ser introduzidas em homozigose e heterozigose.
PROTEÍNA: Na composição da proteína do sorgo uma fração foi identificada como prolamina, também denominada cafirina (JOHNS; BREWSTER, 1916). Posteriormente constatou-se que a lisina era o a aminoácido essencial mais limitante na cafirina. A proteína do sorgo tem uma composição média de 54,7% de cafirina, 30,8% de glutelina, 7,5% de albumina e 7,0% de globulina (VIRUPAKSHA; SASTRY, 1968; ALI, et al., 2009). Mas Selle et al. (2010), observaram variação entre 37,5% e 72,9% de cafirina. Ela faz parte do corpo da proteína, em seções amplamente circulares, localiza no endosperma e se divide em três componentes: α-cafirina, β-cafirina e γ-cafirina. A proporção de cafirina na proteína total e a concentração relativa dos três componentes podem variar consideravelmente, o que pode ter um impacto sobre o perfil de aminoácido do grão e digestibilidade dos aminoácidos essenciais.
TANINO: Cultivar de sorgo pode ser dividido em três categorias, dependendo de seu genótipo e concentração de tanino. Tipo 1 – não tem a testa pigmentada e são livres de tanino. Tipo 2 – tem uma camada pigmentada na testa onde se encontra tanino condensado e Tipo 3 (a prova de pássaros) – contém tanino condensado tanto na testa e pericarpo. Todos os sorgos contem compostos fenólicos: a) Os ácidos fenólicos são derivados do ácido cinámico (ácido ferúlico) e do ácido benzóico (ácido vanílico), são encontrados em todos os sorgos graníferos, mas não afetam os valores de digestibilidade e de palatabilidade do grão. b) Os flavonóides compõem uma classe derivada de benzo-gama-pirona de origem vegetal. Não tem efeito negativo sobre a digestibilidade e palatabilidade da dieta, alem de conhecidas atividade antioxidante, antiinflamatória, efeito vaso dilatador, ação antialérgica, ação antiplaquetária, inibidor de crescimento de tumores e atividades farmacocinéticas no complexo aterosclerose (LOPES et al., 2002). c) Os taninos são polímeros fenólicos solúveis em água, sabor amargo e adstringente. Existem dois tipos de taninos: 1) taninos hidrolisáveis são compostos de glicose e outros sacarídeos poliesterificados, mas este grupo de taninos não aparece no sorgo. 2) taninos condensados são polímeros de unidades de flavan-3-diol ligados por pontes ácido fraco, carbono-carbono, resistentes a hidrólise (ELKIN; ROGLER, 1991). Não são absorvidos no trato intestinal dos animais, onde atuam inibindo a atividade de um grupo de enzimas, diminuindo a absorção de nutrientes, podendo ainda formar complexos com proteínas, com íons metálicos divalentes, carboidratos, e outras macromoléculas.
A presença do tanino no grão depende da constituição genética do material, onde os genótipos que possuem os genes dominantes B1 e B2 (complementares) são responsáveis pela síntese do tanino na testa da semente e gene S (segregador) que junto com os genes complementares sintetizam tanino no pericarpo. Cultivares com os três genes em recessividade não sintetizam tanino. Dados publicados pela Associação Paulista de Produtores de Sementes e Mudas – APPS – demonstram que a quantidade de semente de sorgo com tanino produzida e comercializada nacionalmente para o plantio equivale a cerca de um por cento do total de sementes sem tanino.
FITATO: O ácido fítico é um componente químico abundante nas plantas, constituindo a forma orgânica vegetal do elemento fósforo. (VOHRA; SATYANARAYANA, 2003). Na semente, a aleurona é o principal reservatório de fitato. A concentração média de fósforo total na semente de sorgo é de 4,03g/kg dos quais 3,26g/kg está ligado a fitato, uma fração de 81% de fósforo não disponível (DOHERTY et al., 1982)
III – VALOR NUTRICIONAL DO GRÃO DE SORGO
Antunes et al. (2006), determinaram o valor nutritivo de grãos de sorgo com diferentes genótipos, BR007B de textura macia (farinácea), o BR304 de textura intermediária e o SC283 de textura dura (vítreo), que apresentam composições bromatológicas e valores de energia bruta semelhante si. Os valores de energia metabolizável aparente e energia metabolizável verdadeira foram semelhantes para os genótipos de endosperma com textura macia e intermediária e superiores aos valores para o genótipo de endosperma vítreo (textura dura). Rostagno et al. (2011), determinaram para o grão de sorgo contendo 87,90% de matéria seca, 8,97% de proteína bruta; 2,96% de extrato etéreo e 63,24% de amido um valor de energia metabolizável aparente e verdadeira de 3.189 kcal/kg e 3.407 kcal/kg, respectivamente, na matéria conforme oferecida. A composição de aminoácidos totais, o coeficiente de digestibilidade e o valor de aminoácido digestível, foram também determinados.
IV – DESEMPENHO DE FRANGOS DE CORTE ALIMENTADOS COM SORGO
Bornstein e Bartov (1967) e Sykes (1970), já haviam demonstrado a viabilidade da substituição parcial ou total do milho pelo sorgo nas rações de frangos de corte, mas concluíram que, a substituição acima de 50% nas rações de abate, requeria a correção do nível de xantofila da dieta devido à falta de pigmentação amarelada da carcaça das aves abatidas.
Desde o início dos anos 2000 o grão de sorgo passou a ser objetivo de pesquisa de Fernandes, E.A. na Universidade Federal de Uberlândia (UFU) - MG. Comparou-se o desempenho zootécnico e o rendimento de carcaça de frangos de corte aos 42 dias de idade, não havendo diferença para peso vivo médio, conversão alimentar e viabilidade entre as aves submetidas à dieta base milho, milho-sorgo (50:50) ou base sorgo, deixando claras evidências de que o sorgo é uma alternativa interessante para o uso nas rações de aves e não um substituto do grão de milho.
Uma linha de estudos de granulometria da ração a base sorgo também foi desenvolvida. Nosso primeiro teste comparou o diâmetro de furação da peneira do moinho a martelo usado na moagem dos grãos das rações: 1,20mm; 4,763mm; 6,350mm e 9,525mm. Na primeira semana de vida todas as aves foram alimentadas com ração moída na peneira de 3,175mm. Aos 45 dias de idade não foram encontradas diferenças entre os tratamentos, demonstrando que a granulometria de moagem do sorgo não comprometeu o desempenho das aves (MURTA et al., 2004). Posteriormente, Fernandes et al. (2008), envolvendo 1200 aves de cada sexo, compararam milho moído (A), milho quebrado (B), sorgo moído (C), sorgo moído (50%):inteiro (50%) (D), sorgo inteiro (100%) (E). Aos 42 dias de idade observou-se que o desempenho entre as rações base milho (A) e base sorgo (C) assim como as diferentes formas físicas de ração (triturada, parcialmente triturada e grão inteiro) não afetaram o desempenho dos frangos de corte de ambos os sexos.
Ao concluírem o experimento coletaram uma amostra aleatória de dezesseis aves de cada tratamento, que foram remetidas ao abatedouro para o sacrifício não cruento, evisceradas, e a carcaça submetida a cortes tradicionais para estudo de rendimento enquanto a moela, intestino delgado e ceco foram separados para estudos morfométricos. Os resultados demonstraram que a inclusão de 50% ou 100% de grão de sorgo inteiro promoveu um aumento significativo de peso na moela e no intestino delgado. O ceco não foi influenciado pela forma física da ração (Tabela 2). A principal função da moela é a trituração mecânica do alimento, sendo o tamanho da partícula o regulador da passagem pela região pilórica, ou seja, o bolo alimentar permanecerá na moela até ser suficientemente reduzido em 15-40μm (HETLAND et al., 2004; HETLAND; SVIHUS, 2001; TURK, 1982). Estes resultados reforçam a teoria de que partículas maiores levam a um aumento na musculatura da moela, devido ao maior trabalho para reduzir o tamanho das partículas, como afirmam diferentes trabalhos encontrados na literatura (NIR et al., 1994a; NIR et al. 1995; DAHLKE et al., 2003; THOMAS e RAVINDRAN, 2008).
Resultados parciais de pesquisa realizada na UFU por Cerdino e colaboradores (2011, não concluído), utilizando rações a base de milho moído (100%); sorgo moído (100%); sorgo moído e inteiro (50:50); sorgo inteiro (100%); milho e sorgo moídos (50:50), buscou avaliar o efeito sobre o tubo gastrintestinal. Os resultados mostraram que pintinhos alimentados com ração contendo 100% de sorgo inteiro tiveram maior peso vivo (P<0,01) aos sete dias de idade em relação aqueles que receberam ração com 100% de milho moído (A). Nesta idade, as moelas dos pintinhos alimentados com ração contendo grãos de sorgo inteiros foram significativamente maiores (P<0,01) independente da concentração (50 ou 100%) (Gráfico 1). Estes resultados são coincidentes com trabalhos que demonstram que as partículas grosseiras, assim como o grão de sorgo inteiro, podem diminuir a taxa de passagem pela moela (NIR et al., 1994b), tendo a oportunidade de receber e absorver maior quantidade de ácido clorídrico excretado a partir do proventrículo, ocasionando uma diminuição no pH do conteúdo do proventrículo-moela (MAI, 2007). O baixo pH da moela pode aumentar a atividade de pepsina (GABRIEL et al., 2003) e melhorar a digestão de proteína. A presença de partículas grosseiras no intestino delgado proximal aumenta o peristaltismo, aumentando o tempo de exposição às enzimas digestivas, maximizando a utilização de energia e digestibilidade dos nutrientes (CARRE, 2004; NIR et al., 1995..
VI – CONCLUSÃO
O grão de sorgo tem características agronômicas e genéticas no endosperma, nas cafirinas que compõe parte da proteína, na presença ou ausência de tanino e concentração de fósforo fítico, que podem comprometer a digestibilidade, todavia não constituem barreiras aos nutricionistas no seu uso na nutrição das aves. A substituição parcial ou total do milho das dietas de aves pelo grão de sorgo mostra-se eficaz nos índices de desempenho zootécnico como consumo de ração, ganho de peso e conversão alimentar. Os rendimentos de carcaça ou de cortes não apresentam nenhuma diferença em relação aqueles de frangos criados em dietas base milho. Todos estes aspectos somados favorecem o uso do sorgo, pois devido a seu custo referencia mais baixo que o milho e a possibilidade de seu uso inteiro nas rações, o torna economicamente interessante.








