Nutrição

Publicado em 17.10.11 às 14:10 hs

Cuidados com a alimentação avícola no tempo frio

Ricardo de Albuquerque1; Cristiane Soares da Silva Araújo1; Lucio Francelino Araújo1; Nayara Tavares Ferreira2; Maria Fernanda Castro Burbarelli2

 

1: Professor (a) FMVZ/USP, 2: Pós Graduanda FMVZ/USP

 

Com o avanço ocorrido no sistema produtivo avícola em todos os seus segmentos, a determinação de um meio ambiente adequado torna-se condição indispensável para que os animais possam expressar um desempenho produtivo máximo, associado ao bem- estar.

A evolução da avicultura resultou em aves mais eficientes para converter diferentes alimentos em proteína animal, todavia, problemas metabólicos têm surgido em função desse avanço de produtividade, destacando-se entre estes, as condições ambientais desfavoráveis, que causam impacto muito acentuado, pois o peso corporal, a idade, o nível de alimentação, as condições das instalações e a adaptação determinam quanto da energia da dieta será utilizada para a demanda térmica do animal.

Algumas condições básicas devem ser atendidas quando se objetiva alcançar ótimo desempenho em avicultura: condições ambientais e térmicas ótimas; suprimento adequado de aminoácidos; fornecimento de energia suficiente para manutenção e produção animal; modificação das dietas em situações ambientais adversas e, de acordo com a fase de desenvolvimento da ave, respeitar as exigências iniciais de aquecimento, reduzindo-se posteriormente a mesma.

Em nosso ambiente criatório, as instalações avícolas normalmente são projetadas para minimizar os efeitos da produção de calor e da alta temperatura sobre as aves em condições de verão, porém, cuidados também devem ser tomados no período de inverno. Em temperaturas baixas, a ventilação é importante pois aumenta o nível de desconforto da ave, refletindo no consumo alimentar e eficiência produtiva.

As aves, como animais homeotermos, possuem um centro termorregulador, localizado no hipotálamo, capaz de controlar a temperatura corporal através de mecanismos fisiológicos e respostas comportamentais, mediante a produção e liberação de calor, determinando assim a manutenção da temperatura corporal normal (MACARI et al., 1994).

O ambiente é definido como a soma dos impactos circundantes biológicos e físicos. Dessa forma, variáveis como temperatura, umidade relativa, ventilação e radiação solar são indicadores da qualidade do ambiente para a ave por serem agentes que podem afetar o metabolismo e causar estresse. Quando isso ocorre, processos fisiológicos são ativados para manutenção da homeotermia corporal, reduzindo a energia destinada à produção. Nessa condição de estresse térmico pelo frio, são desencadeados nas aves mecanismos como vasoconstrição periférica e aumento de metabolismo para manutenção da temperatura corpórea (Macari et al., 2004).

Segundo Nääs et al. (2001), as aves encontram condições perfeitas para expressão de suas melhores características quando dentro da zona de conforto, ou seja, em ambientes com faixa de temperatura em que a taxa metabólica é mínima e a homeotermia é mantida com menos gasto energético (Furlan & Macari, 2002).

A área de bom desempenho para aves encontra-se entre 10 e 270C, enquanto que a maior taxa de crescimento ocorre entre 10 e 220C, porém a melhor taxa de conversão alimentar está perto dos 270C. Portanto o que é ideal para uma variável não necessariamente ocorre com outra. As variações de temperatura provocarão alterações no consumo de alimento que podem variar de 1,1% a 1,7% para cada 10C segundo vários autores, situando-se próximo de 1,5% para cada 10C, considerando a temperatura ideal de 20 a 210C. Essa relação não é linear e o principal fator que regula o consumo das aves é sua exigência energética. A capacidade da ave adulta reagir ao frio é maior que para o calor, tanto que o limite inferior da zona de conforto está em torno de 250C abaixo da temperatura corporal, enquanto apenas 50C acima da temperatura corporal (42 p/ 470C) poderá vir a ser letal para a mesma, conforme Kieling et al. (1998).

Em condições de extremo frio, a perda de calor é alta e se o animal é mantido em uma mesma dieta energética, constante para qualquer temperatura, a energia disponível para o seu crescimento é mínima. Ferreira (2000) descreveu ser importante enfatizar que as temperaturas críticas superiores e inferiores são influenciadas por diversos fatores, alguns destes serão citados a seguir.

Os cuidados com a nutrição de nada adiantam se não forem tomados os devidos cuidados com o manejo (aquecimento, ventilação e iluminação). Os cuidados deverão ser maiores nos primeiros vinte dias de idade. O tipo de construção do galpão e os equipamentos, inclusive o tipo de cama utilizada, influenciarão o intercambio de temperatura entre ave e o ambiente de criação.

A temperatura da ração e da água consumida é outro fator que pode ter efeito, principalmente quando água fria é fornecida no período de inverno. A água deve ser considerada como alimento essencial, com funções bastante específicas. Este elemento consome grande quantidade de calor (devido ao seu alto calor específico), sendo bastante importante no processo de termorregulação. De maneira geral, quanto mais alta a temperatura ambiente, maior será o consumo de água pelos animais. O aumento de água auxilia na manutenção da homeotermia, uma vez que promove redução na temperatura corpórea, e os animais que ingerem mais água têm maior capacidade de ingestão de ração.

O consumo voluntário de ração de animais mantidos em temperaturas elevadas é estimulado pela adição de lipídios na dieta. Este fato é explicado pela menor perda de calor na digestão de lipídios em relação a proteínas ou carboidratos. Em ambientes hipertérmicos este efeito é benéfico, pois reduz o Incremento Calórico (IC), referente aos processos metabólicos e mantém o animal mais confortável. Além do mais, essa queda do IC produzido pelo consumo de gordura libera uma maior porcentagem de Energia para os processos produtivos. Esta redução de calor é de pouco valor em temperaturas baixas, considerando que o IC produzido pelo metabolismo de carboidratos e proteínas é utilizado para cobrir as necessidades de manutenção do animal (Stahly e Cromwll, 1979).

Para poedeiras quanto a baixas temperaturas, o maior inconveniente é o aumento do consumo de ração, como uma tentativa natural para incrementar a ingestão da energia necessária a manutenção de todas as atividades vitais. O consumo mais alto é encontrado entre 5 e 100C de acordo com Fabrelo (1979).

Estudos relacionando níveis energéticos das rações mostram influência linear sobre o consumo de ração e a conversão alimentar. O ganho de peso e a mortalidade também são influenciados, aumentando conforme o nível energético. Quanto maior o consumo de alimento, menor será a temperatura crítica inferior em função do calor fornecido ao animal pelo alimento, possibilitando-o suportar temperaturas efetivas ambientais mais baixas.

Em ambiente frio, as aves aumentam o consumo de ração, numa tentativa de atender à necessidade de mantença que fica aumentada em função da maior demanda de energia exigida para manutenção, da homeotermia. Desta forma, grande parte dos nutrientes ingeridos será direcionada para mantença e o restante (menor quantidade) será utilizado para o crescimento. Em período de verão, as aves reduzem o consumo de ração, como forma de diminuir a produção de calor gerado pelos processos metabólicos e, consequentemente, a ser dissipada para o ambiente.

Com o decréscimo da temperatura efetiva, abaixo do limite inferior da zona de conforto térmico, o animal utiliza suas reações físicas para a manutenção da homeotermia. Estas reações seriam, por exemplo, agrupamento dos animais para minimizar a superfície de exposição corporal, alteração de sua postura diante do vento, aumento no consumo de alimentos. Persistindo a queda na temperatura, o animal poderá, involuntariamente, aumentar a atividade do músculo esquelético (tremor), propiciando maior produção de calor.

O plano nutricional adotado influencia significativamente a produção de calor dos animais, que é altamente correlacionada com o peso de órgãos metabolicamente ativos das aves, como o fígado, rins e coração. Diversas alterações fisiológicas provocadas pela adaptação dos animais a diferentes temperaturas ambientais podem ocorrer; dentre elas destaca-se a modificação no tamanho dos órgãos que altera a exigência nutricional dos animais. Este aumento no tamanho relativo dos órgãos, causado pelas baixas temperaturas, constitui uma adaptação dos animais em função da maior demanda metabólica, resultante do aumento do consumo de alimentos que ocorre nesse ambiente.

A literatura descreve que maior ganho de peso no frio pode ser causado pelo aumento no consumo de ração, como já descrito anteriormente, este seria um mecanismo para compensar a perda de calor mais elevado. O esforço produzido pelo frio aumenta a glândula tireóide, porque a atividade funcional da tireóide, que é positivamente correlacionado com o peso, é maior durante a exposição a ambientes de baixa temperatura (Donkoh, 1989).

Atualmente, os produtores têm grande preocupação com a queda na produtividade animal, relacionada a um ambiente considerado adverso. Porém, com a evolução das pesquisas na área de nutrição e ambiência, algumas técnicas compatíveis com cada caso, já tornaram- se evidentes, as quais poderão ser empregadas no sentido de favorecer a adaptação do animal ao meio ambiente e, conseqüentemente, conservar seu desempenho produtivo.

Do ponto de vista prático, é importante estabelecer níveis adequados para cada fase do ciclo de produção, nos diferentes ambientes, para adaptar o suprimento disponível às necessidades energéticas dos animais. Os diferentes regimes nutricionais, associados às variações ambientais, às quais as aves estão sujeitas, provocam diversificação em suas respostas, assim, além dos aspectos citados, pode-se destacar a melhor adequação das dietas, que age como principal coadjuvante no processo. O IC é constituído basicamente do calor de fermentação e da energia gasta no processo de fermentação, assim como o calor resultante do metabolismo dos nutrientes. Sabe-se que o IC aumenta com quantidade de alimento consumido e é inversamente proporcional à concentração energética da dieta.

O alto poder de IC das proteínas, na forma em que são fornecidas pelos ingredientes das rações, é devido a série de reações complexas exigidas no seu metabolismo. Portanto, o IC é reduzido em uma dieta quando aminoácidos sintéticos substituem parte da proteína do alimento. Faria Filho et al. (2006) descreveram que as dietas com baixa proteína, formuladas pelo conceito de proteína ideal, podem ser utilizadas na alimentação dos frangos criados à temperatura de 20 ou 25ºC, em relação a 32 ºC, pois não alteram o desempenho e as características de carcaça e diminuem a excreção de nitrogênio.

Em períodos de altas temperaturas, com a diminuição no consumo de alimentos, menor quantidade de nutrientes estará disponível para as aves. Assim, deve ser aumentada, proporcionalmente, a concentração dos nutrientes da ração, de forma a atender a demanda metabólica nesse ambiente. Esta prática, bastante utilizada, representa um aumento da densidade da dieta. Em períodos de baixa temperatura ambiental, essa analogia é inversa, e deverá ser feita, pois o aumento no consumo de alimentos requer diminuição da densidade da dieta.

A diminuição dos níveis de sal na dieta das aves poderá ser necessária em regiões muito frias, pois promove maior ingestão de água e, portanto, maior umidade de cama, além das cortinas permanecerem erguidas por um período maior de tempo.

A forma física da ração também é importante, pois o uso de ração peletizada promove aumento de consumo, e aliado ao rápido crescimento das modernas linhagens para corte, pode provocar insuficiente oxigenação para o desenvolvimento muscular, com conseqüente maior trabalho cardíaco, e possibilidade de ocorrência da Síndrome Ascítica.

Diante do que foi exposto, podemos considerar que o estudo de efeitos do ambiente sobre a nutrição é de grande importância, sendo necessário a elaboração de tabelas de exigências nutricionais ou equações de predição que ajustem a nutrição nas diferentes fases do ciclo de produção de aves às condições climáticas brasileiras, permitindo a formação de rações tecnicamente mais adequadas para ótima produtividade.

 

 

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