Manejo

Publicado em 29.09.11 às 14:09 hs

Ambiência em frango de corte

Prof. Dr. Danilo Florentino Pereira

Campus Experimental de Tupã – Univ Estadual Paulista

 

INTRODUÇÃO

Durante a evolução do sistema de criação de frangos de corte, a avicultura passou de uma quase indiferença às questões de ambiência do alojamento, a uma preocupação intensa pelo provimento de condições ambientais adequadas de criação. A necessidade de ambiência adequada nos aviários está relacionada a dois fatores: a necessidade de atender mercados consumidores mais exigentes quanto ao bem estar das aves e a redução a níveis críticos das margens de lucro.

Quanto maior a densidade de criação, pior é a conversão alimentar e o peso final das aves. Atualmente é comum a criação de frangos de corte com densidade de 35 kg/m², o que reforça a importância do controle do ambiente dos aviários.

Potencializando os efeitos negativos da alta densidade, os aviários modernos tendem a alojar muito mais aves. Nestas condições, o monitoramento e o controle da ambiência passam a ser fundamentais para o sucesso do sistema de criação. A renovação do ar é mais difícil e sempre deve estar associada a sistemas de ventilação mecanizados.

Outra característica desses aviários é a reutilização da mesma cama por seis lotes, ou mais. Apesar dos tratamentos que são empregados nas camas para a sua reutilização, observa-se que há um aumento da compactação e, com isso, o risco da umidade ficar acima do recomendado e, portanto, do surgimento de doenças infecciosas associadas. O surgimento de problemas locomotores também é observado com maior freqüência em camas inadequadas.

Associado às características inerentes ao sistema de criação, consideramos ainda o ambiente externo, que atua diretamente na ambiência interna e proporciona eventos extremos no Brasil, como ondas de calor mais intensas e frequentes.

A avicultura precisa manter e melhorar os índices de produtividade atuais e aumentar a produção dessa proteína animal de excelente qualidade e baixo custo, com o objetivo de atender a crescente demanda da população de maneira mais sustentável e em condições climáticas menos favoráveis. Assim, não há dúvidas que a indústria de frango de corte enfrenta o seu maior desafio na ambiência.

 

O QUE É AMBIÊNCIA?

Ambiência significa o espaço arquitetônico organizado e animado, e ao mesmo tempo psicológico, preparado para prover o melhor desempenho de quem o habita. Nesta definição, englobam-se os diferentes ambientes que atuam sobre o desempenho das aves, que são:

• Ambiente térmico: composto pelas variáveis ambientais temperatura, umidade relativa e velocidade do vento, que juntas determinam as sensações térmicas das aves no ambiente. Vários autores relataram as perdas de produção decorridas do estresse térmico em aves (Campos, 2000; Pereira et al., 2008a; Vale et al., 2008).

• Ambiente aéreo: consiste na qualidade do ar de dentro da instalação por suas partículas em suspensão (poeira) e concentração de gases. Diversas pesquisas verificaram que aves expostas a altas concentrações de amônia, p. ex., deixam de exprimir alguns comportamentos importantes com queda da produção (McKeegan et al. 2005; Nääs et al., 2007; Wathes et al., 2002)

• Ambiente biológico: nível de população de insetos parasitas e microorganismos que co-habitam os aviários. Pesquisas mostraram que o descontrole dessas populações de microorganismos e insetos proporcionam perdas de produção, principalmente devido o surgimento de doenças nas aves (Baracho et al., 2006)

• Ambiente físico: constituído pelos elementos construtivos e funcionais dispostos nos aviários, p. ex: comedouros, bebedouros, poleiros, barreiras a movimentação, entre outros. Bizeray et al. (2002) apontou os efeitos de barreiras colocadas no acesso aos comedouros de frangos de corte na expressão de comportamentos naturais como empoleirar, que favorecem o bem estar e previnem problemas de saúde nas aves.

• Ambiente acústico: definido pelos ruídos no ambiente, tanto das aves quanto pelos equipamentos instalados e pelo meio ambiente exterior. Moura et al. (2008) verificaram correlação entre a vocalização de frangos de corte e a temperatura em aviários de frangos de corte. Miragliotta et al. (2006) analisaram, por meio de geoestatística, a variação espacial do ruído em aviário tipo túnel e verificaram que próximo aos equipamentos o ruído foi significativamente maior, podendo afetar o desempenhos as aves.

• Ambiente social: é formado pela hierarquia social e disputas por espaço entre as aves. É afetado principalmente pela densidade de alojamento, tamanho de grupo e relação de bebedouros e comedouros por ave.

 

BEM ESTAR E MERCADOS CONSUMIDORES

Em essas categorias de ambiência, a produtividade e o psicológico das aves são afetados. Assim, a ambiência na avicultura ganhou força na última década pela necessidade de proporcionar às aves alojadas melhores condições de bem estar, de maneira a atender demandas dos consumidores, principalmente o europeu.

A partir da década de 90, o estudo do bem estar animal baseado em comportamentos passou por uma mudança em sua abordagem. Segundo Gonyou (1994), os parâmetros utilizados para determinar o bem estar animal eram restritos aos comportamentos alimentares e reprodutivos, porém, os estudiosos da etologia sentiram a necessidade de estudar os estados emocionais e as habilidades cognitivas, principalmente sobre a liberdade de movimento e as experiências mentais.

Além da mudança no foco dos estudos científicos, o bem estar animal passou a ser preocupação dos consumidores de proteína animal. A Comissão da União Européia (UE) lançou em maio de 2007 uma nova diretriz sobre o bem estar de aves em produção comercial devido à crescente preocupação dos consumidores europeus sobre a maneira com que as aves são criadas e abatidas. O Brasil, como o maior exportador de carne de frango do mundo (responsável por 38% das exportações mundiais, ABEF, 2011), se vê obrigado a rever a forma de produção para atender aos novos padrões europeus e consequentemente do restante do mundo. Beaumont et al. (2010) verificaram que os consumidores europeus consideram frequentemente que a produção avícola padrão tem como resultado um bem estar muito pobre para as aves.

Segundo Nääs et al. (2008) a avicultura enfrenta o dilema de balancear a crueldade e a produtividade, ou seja, o tratamento que não visa o bem estar das aves em detrimento a sua maior produtividade. Porém, segundo os autores, a garantia do bem estar pode significar a viabilidade econômica do negócio, aumentando as margens de lucro dos produtores e dando continuidade a suas exportações para os países da UE, sendo possível desenvolver novas práticas na criação avícola que assegurem bons índices de produtividade e qualidade sem colocar em risco o bem estar das aves (França, 2008), a partir de estudos biológicos que definam limites éticos para guiar as práticas.

Broom (1991) afirma que o sofrimento e as baixas condições de bem estar podem ocorrer juntos, porém o baixo nível de bem estar pode ocorrer sem que haja sofrimento, e podem ser indicados por redução na expectativa de vida, prejuízos no crescimento, formação do corpo e reprodução, surgimento de doenças, supressão imunológica e anomalias de comportamento.

A partir de estudos das normas e leis relativos a produção de frangos de corte, Silva (2008) comparou as legislações do Brasil e de países da UE, Austrália e Estados Unidos, identificando que o Brasil possui em média 57% menos normas regulamentadoras que esses países (Figura 1). Portanto, há um campo enorme para pesquisas e desenvolvimento na área do direito e normatização da produção no Brasil.

 

AMBIÊNCIA DE PRECISÃO APLICADA À AVICULTURA

Dentro deste cenário global, o produtor procura ferramentas que sejam capazes de registrar os dados diários do aviário e transformá-los em informações úteis na tomada de decisão. Observa-se a falta de ferramentas utilizadas para estimar o bem estar das aves que envolvam dados além dos ambientais. Segundo Nääs et al. (2008), a avicultura nacional utiliza quase que exclusivamente parâmetros do ambiente térmico, como temperatura de bulbo seco, todavia há autores que utilizam outros parâmetros, como Renema et al. (2001) sobre intensidade luminosa, Manteuffel et al. (2004) sobre a vocalização das aves, Pereira (2005) e Pettit-Riley & Estevez (2002) sobre comportamento natural.

Além da complexidade de saber o que medir para avaliar o bem estar de animais, os pesquisadores encontram dificuldade em monitorar os animais e extrair os dados necessários. Frost et al. (1997) indica a aplicação de técnicas de sistemas de monitoramento integrado, nos quais informações de sensores, bancos de dados, modelos matemáticos e base de conhecimentos são combinados e interpretados para extrair e maximizar as informações disponíveis.

Pereira et al. (2008b) desenvolveram um sistema fuzzy para estimar o bem estar de matrizes pesadas utilizando sete variáveis de entrada: temperatura do ar, concentração de amônia no ar e cinco comportamentos descritos por Pereira (2005) como indicadores de bem estar. Este controlador foi capaz de estimar o bem estar corretamente de 80% dos casos testados.

Seguindo outra linha de pesquisa, diversos autores pesquisam o comportamento espacial das variáveis do ambiente térmico no interior de aviários (Pereira et al., 2008a; Carvalho, 2010; Miragliotta et al., 2006), com o intuito de verificarem zonas críticas e pontos críticos para controle. Os resultados dessas pesquisas mostram que a variação espacial no interior dos aviários dependem da arquitetura da instalação e do tipo de ventilação instalada.

Miragliotta et al. (2006) estudaram essas variações em aviários de frangos de corte em sistema de ventilação tipo túnel. Os resultados mostraram que existe forte tendência do ar ficar mais aquecido e úmido próximo aos exaustores (Figura 2). Esta concentração de calor e umidade na saída do aviário é decorrente da liberação de calor latente pelas aves ao longo de todo o galpão durante a passagem do ar.

 

 

Já em Pereira et al. (2008a), verificou-se zonas críticas (Figura 3) durante o monitoramento sistemático de aviários com ventilação natural (abertos) e com largura de 6m. Entretanto, em dias diferentes de monitoramento, não foi observado um padrão de distribuição espacial do ambiente. Os autores afirmam que essa aleatoriedade no padrão térmico desses tipos de aviários é resultado da eficiente renovação de ar proporcionada pela ventilação natural e “efeito chaminé” proporcionado pelos lanternins.

 

 

A IMPORTÂNCIA DA CAMA NA AMBIÊNCIA

O correto manejo da cama em aviários auxilia no controle de temperatura interna das instalações e reduz os casos de lesões de peito e articulações das aves. No Brasil, o material mais utilizado é a maravalha de madeira, que sofre constantes oscilações no preço, se tornando inviável em algumas épocas e regiões. Mas, este problema pode ser solucionado com alternativos como fenos de capins, palhas, polpa de citrus e outros que têm mesmo desempenho (Almeida Paz et al., 2010; Garcia et al., 2010).

O papel da cama é controlar os níveis de umidade, a produção de pó, a volatilização da amônia, proporcionar condições das aves expressarem comportamentos naturais importantes como o ciscar e banho de areia e prevenir a proliferação de insetos e agentes transmissores de doenças. Portanto, constitui importante elemento ambiental na qualidade das diferentes categorias de ambiência.

Para a escolha da cama deve-se considerar a densidade de criação, pois o excesso de animais por área pode ocasionar deteriorização acelerada da cama. Uma forma de amenizar esse problema é o aumento da sua altura, que deve ficar entre 10 e 14 cm, variando entre o verão e o inverno. O tamanho das partículas também é de grande importância, já que a compactação da cama, formada por gotejamentos, absorção de umidade e pisoteio das aves, podem formar blocos, que prejudicam o lote aumentando a incidência de lesões.

A cama pode ser reutilizada desde que atenda alguns requisitos como: 1) não tenha ocorrido doenças contagiosas no lote anterior; 2) todo o equipamento deve ser lavado e desinfetado antes da recolocação no aviário, para a eliminação de causadores de doenças contagiosas; e 3) é necessária a fermentação da cama por no mínimo 14 dias.

Quando comparado o perfil bacteriológico de camas novas e reutilizadas, observa-se que a partir do terceiro lote, as camas apresentam cargas bacterianas iguais ou inferiores a camas novas. Com isso, a utilização de camas de aviária submetidas a tratamento eficiente é considerada segura e recomendável. Entretanto, a partir do quarto lote pode ocorrer redução no desempenho das aves e aumento da incidência de calos nas patas, pois as camas apresentam maior teor de amônia e pH mais elevado, devido alto teor de ácido úrico (Almeida Paz et al., 2010; Garcia et al., 2010).

 

IMPACTOS DO AMBIENTE EXTERNO NA PRODUÇÃO DE AVES

De acordo com os estudos realizados pelo IPCC – Intergovernmental Panel on Climate Change, eventos climáticos extremos como ondas de calor serão intensificados em frequência e intensidade, devido ao aumento da temperatura global (Marengo, 2007), tornando importante o estudo do impacto do clima na produção animal.

O impacto das mudanças climáticas nas indústrias e na produção animal que ocupam menos terras, como porcos e aves, será menos severa quando comparada com sistemas pastoris e cultivo de grãos, devido a possibilidade de controle de parâmetros ambientais e por causa do gerenciamento de variáveis de alimentação (Nardone et al., 2010). Mas, essa afirmação não deve tranqüilizar os produtores desses sistemas intensivos, pois estes também deverão se adaptar ao novo clima.

A mortalidade de aves devido ao estresse térmico aumenta quando ocorrem ondas de calor. Ao longo do ciclo produtivo da ave, há uma taxa de mortalidade esperada. Os guias de manejo (COOB, 2008; PLANALTO, 2006) apresentam valores entre 0,7 e 1,1% por semana de produção, dependendo da idade, porém, quando a média de mortalidade é ultrapassada, poucos estudos se dedicam a investigar essa dinâmica, típica de análise de dados discrepantes (outliers).

As técnicas de mineração de dados, tais como seleção de características e classificação de dados (árvore de decisão), são úteis para a construção de modelos de produção animal, que apresentam baixa complexidade em termos de número de atributos, melhor precisão preditiva e compreensibilidade. Vale et al. (2008) construíram um modelo preditivo de mortalidade de frangos de corte (Figura 4) a partir de banco de dados históricos de mortalidade e dados meteorológicos da região dos aviários, recomendando o uso desse modelo a situações em que o ambiente interno reflete diretamente as condições ambientais externas, quando o aviário não possui sistemas de climatização.

 

 

Trabalhos dessa natureza devem se multiplicar pelo Brasil para que os pesquisadores possam estabelecer zonas bioclimáticas mais adequadas, e esclarecer aos produtores quais são os desafios presentes em cada microrregião para os diferentes sistemas de produção animal.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A ambiência é fundamental para o sucesso da produção de frangos de corte, principalmente pela intensificação da produção. É importante considerar todos os aspectos que envolvem a ambiência, porque as suas relações são complexas e afetam o bem estar e a produtividade das aves.

Atualmente, a avicultura está diante de um desafio de manter e melhorar os índices de produtividade alcançados, em condições climáticas menos favoráveis, para aumentar a produção de carne de frango e atender o aumento da demanda mundial. Para a avicultura superar esse desafio, deve investir em monitoramento dos processos relacionados à ambiência, de modo a melhorar a qualidade da informação de suporte à decisão e poder atuar com precisão no controle da ambiência.

 

 

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